sexta-feira, 30 de abril de 2021

Blackout

Apaguei tudo..desliguei TV e luz da cozinha. Aqui é pequeno, cozinha, sala- quarto e banheiro. Uma única lâmpada Led dá claridade em tudo. A cachorra ronca com ondulações,parece- me estar falando com outro cachorro em sonho. Mas os resmungos são quase humanos, tem inflexões e pausas. A outra sonha tendo espasmos, mexendo as patas,virando os olhos. Não é convulsão. É jeito dela dormir. E eu? Espero o sono delas passar pra mim. De verdade, eu queria ser uma cachorra ,nesses meses de pandemia: imune. Acordar e ter tudo pronto, não precisar fazer nada. Que sonho : eu, uma cachorra imune. Só que não: minha espécie só quer se vacinar, virar Jacaré.

domingo, 25 de abril de 2021

Louca ("de boa"_ no isolamento____)

Vinte e cinco de abril de 2021: estou estupefata. O que quer dizer mesmo estupefata? Não me lembro agora, mas é isso que estou;depois a gente vê no dicionário. Isso, depois a gente vê no dicionário também (se é que vou achar lá,essas coisas que estou sentindo ou fazendo) Contei que adiantei as comidinhas do meu aniversário? Adiantei mesmo, ia cair num domingo, o povo ia à missa; pintou,então, um aniversário emergencial: pastel com cerveja. Só nós quatro, eu,mãe e manos, seguindo o protocolo de segurança; aqui em casa é facil fazer distanciamento: a gente não é grudado mesmo ,nem é cheio de pegação. Chutei o balde, viu , no cartão de crédito. Comprei de tudo, desde bola para fazer pilates,colchonete,cosméticos da Vichy, tapete anti-derrapante para ninguém cair aqui dentro. Ninguém, nem dona ( EU) nem cachorra. É um tal de escorregar na mangueira de água, cair em cima da mão tirar raio x-que-bom-que nada-quebrou-que-maravilha-ninguém-na-sala-de-espera. Claro, onze da manhã,pleno sábado de aleluia. Estou tendo uma paciencia descomunal, ainda em casa, há mais de 1 ano. A única mulher que desejo aqui é uma faxineira. Esse é meu fetiche: uma faxineira vacinada com as duas doses. Vai demorar;toda faxineira tem no máximo 40 anos. Estamos na vacinação do grupo 60 ainda. Então...... As amigas? Só por vídeo. E ...está ótimo. De todas elas, só uma continua mandando fotos. Fotos de caminhada ( parques foram liberados ). Fotos de pratos. Prato cheio, prato vazio, copo de cerveja, foto dela de porre, foto da mãe, do filho,do genro, do apartamento,foto da geladeira, do fogão, da mudança, da carteira de vacinação do filho imune nos EUA, foto da rua, foto. Foto. Foto. Acho muito engraçado. Cada um se diverte como pode. Uns fazendo foto. Eu, escrevendo. Touchè! Aqui,olha, não vejo mais postagem de médico, nem entrevista com médico, nem estatísticas municipais, estaduais,mundiais de transmissão. Estou louquinha de boa no meu isolamento e depois de amanhã,tomo minha primeira dose.

sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Benefícios do Isolamento


A princípio, foi um horror geral, a pane, o medo de por o  pé na rua e dar de cara com alguém espirrando no seu rosto,  ruim de eu  pegar esse troço, ficar sem ar, não saio de casa pra nada. 

Tudo delivery e pasmem: no meu modesto bairro, há a incrível facilidade desses serviços, que maravilha, tudo em casa. 

Certamente devo ter sido a moradora mais paramentada, máscaras descartáveis, luvas descartáveis, touca  para a cabeça , pro-pés e protetor de olhos: óculos de peão de obra, mesmo. Essa coisa não me pega.

 Um mês, dois meses, amigas on line, tudo virtual, contato humano nem fodendo. Claro, muito menos fodendo. A casa entorpecida de álcool. 

O vírus  bem que podia morrer com éter e a gente entrava num barato de lança perfume.

 Três meses, quatro meses. Cara, você não sai, não gasta. Não consome , não compra.  

Pela primeira vez no meu histórico bancário, o cartão de crédito está me devendo 60 reais. 

Uma Operadora me presenteou com 6 meses de mensalidade, o que pagou 2 continhas chués e ainda sobrou.

sábado, 28 de setembro de 2019

Sobre o momento. Os momentos.
Sobre todos os momentos que são entre eu e você, possibilitando a terceira pessoa do plural.
Nós. Que andamos sozinhas quando estamos sós, que pedimos comida para um.
E ficamos imensas numa mesa de restaurante, que ocupamos as cadeiras com as bolsas, revistas , casaquinho, jaqueta.
E pomos o celular sobre a mesa, num gesto mecânico de não enxergar o vazio ao nosso redor. Incomoda ?
Nem tanto. Mas  existe de forma descomunal.
Porque todas as pessoas comuns têm alguém do lado.
A lateralidade é coisa de futuro, lado a lado.
Hoje é de frente. Uma mulher olhando para a outra. E vamos derreter de carência e sensibilidade porque a vida está tumultuada.
Acho que vamos abraçar a solidão que vai ficar sem graça perto da gente. Vamos encher a cara dela de vermouth.
E a nossa  de esplendor , sem gelo.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

YOUNG

Há certas águas que não matam a sede,
Você já notou?
Como a saudade que não nos conduz a
Nenhuma epifania.
Saudade deveria sempre render um verso
Perfeito, visto que para nada serve.
Acordamos cansados por
Senti-la,
Se é que dormimos.
Ela nos rouba o presente,
Nos cega o futuro.
Estou assim agora: presa
Ao passado quando
Estive com você.

FERNANDA YOUNG