sábado, 5 de outubro de 2013

" Avenida Anchieta "




Eu me abrigava na rede . Sentia tanta proteção,ali,enrolada naquele tecido forte e xadrez. 
Não havia frio,nem calor. Havia aconchego,esconderijo. Dias em que eu fugia do mundo. 
Noites em que eu acreditava no amor. 

O amor me salvaria,sustentaria e traria a felicidade para mim. 
E a rede entendia o meu coração.Indo e vindo. 
O balanço  me jogava aos braços de Beatriz e  Jacques Brel. 

Não me deixes mais. O Remy Martin e  o Pacco Rabane impregnavam,delicadamente os pontos do nosso tecido.
Não precisava de mais nada naquela casa. Os meus sonhos ocupavam todos os cômodos,esplendidamente vazios. Minha rede,meu reino forte. Meu  amor até a morte.




Neusa Doretto

domingo, 29 de setembro de 2013

" Lávocê "

Se tudo se transforma
do estado líquido
em que estamos
O gasoso
pode
envolver
num perfume
e
o
sólido
dar
um
prazer
e
um
certo
volume!

Neusa Doretto

sábado, 21 de setembro de 2013

" Torpor "



Tonta de amor
trêmula a teus pés. 
Sou pouca.

Sequer tateio tua tez tirana
Sequer fico sob teu teto
Mas
Tudo em mim é tanto
perto de ti
Que desafeto partir !

Neusa Doretto

terça-feira, 17 de setembro de 2013

intenso



Gostar é o exagero da alma, elogio desnecessário para aquilo que se vê.
Quando nenhum adjetivo veste sua voz e não há mais palavras. 
Só a coincidência do olhar._________Neusa Doretto

"Alívio"


O amor passou.
Abra os olhos, agora.
Sorria, aliviada.
Você não tem esperança de mais nada

Neusa Doretto

" inadequada"






Mais do que escrevo 
tem dia que não me leio


Neusa Doretto

Upa!



ela faz tipo
eu fito
é sim
acredito
ela ri
ela vem
eu estava
ela também
sem ninguém
Amém


Neusa Doretto

" perecível "

Não sei se é poesia, mas escrevo o que gela por dentro. 
Depois a evaporação e logo acaba.
Acho que não é poesia: é uma coisa vaga. 

Neusa Doretto

Da malandragem:


A larápia 
é da laia 
do conluio
de soslaio

Neusa Doretto

domingo, 15 de setembro de 2013

" Aro "









É pelo  olho que
tudo entra
pelo olho que se inventa  a ilusão
É pelo olho que se dá
A locomoção
a mudança de uma opinião
É pelo olho que  se joga ou se  acomoda
qualquer intenção
O olho é veloz
É roda
E
canta como pneu
quando
meu olho
bate
no
seu


Neusa Doretto

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

" sinopse "


Passei por aqui e você não havia chegado ainda.
Pensei ter ouvido seus passos um dia desses. Devo estar ansiosa com essas pessoas passando pela minha vida. E você não passa. Não veio ainda. Deve estar acabando um amor que durou a vida inteira. Pela demora, deve ser isso. 


Neusa Doretto

sábado, 20 de julho de 2013

" de repentemente "





...E até aquele amor que não deu certo
Foi a coisa mais certa que eu tive
Meu Deus,se não é por amor,
porque é que se vive?

Amor a tudo
Ao acordar e ter o bucho farto
Ao dormir no calor do quarto

Amor pela existência
Pela graça cedida e rimada
que registra a aventura da vida
Mais nada!

Neusa Doretto

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Abraço





Eu levo um tombo na rua ou um carro quase me pega. Quase eu me arrebento ou vou dessa pra outra. O susto endurece meu rosto, engrossa minha circulação. Eu  não sinto os pés de tanto nervoso. Quero chegar em casa, tirar a roupa, e perguntar pra alguém se me machuquei muito. Fico angustiada porque queria chorar para passar o medo, chorar abraçada .
É nessa hora que eu preciso de um amor, pra abrir a porta de casa e  falar: olha ,quase morri, me abraça.

sábado, 22 de junho de 2013

picada

.
.
.
.
.


depois
de
tu
do
amor
eu
chuparia
o veneno da veia
e...

morria na  teia
.
.
.
.

Gabinete



Cerimônia alguma,
eu povoada de amor
e
tu que me habitas
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.
.





( in memorian Rau )




Namoro



quem sabe o amor me aparece
numa hora de descuido
e eu nem perceba tudo
o que carrega
no olhar
e cega
eu
o
deixe passar


Neusa Doretto

terça-feira, 18 de junho de 2013

( história )


  • Tudo ficou fora de lugar, de repente, as coisas voando para o infinito que ela não conseguia segurar.
    E voavam com a intensidade dos sentimentos mais frescos e abruptos.
    Um caroço de pessego, furando sua carne macia, descendo pela garganta larga que não cansava de salivar. Mais que isso, de engolir sensações  novas. Aquele desejo.
    Um pano segurando a boca e as palavras saindo às cegas, quase sem susto,porque cegos sabem por onde andam, sentimentos também. Conhecem todos os pontos do itinerário.
    Nada mais pousa e tem controle.
    E é assim, subitamente e há milhares de anos que isso acontece, que  os corpos se querem.
    Neusa Doretto